então, sexta à tarde, outubro, eu faço um deploy e derrubo o checkout por quarenta minutos. cliente pagante sem conseguir comprar nada. meu gerente numa call com vice-presidente. eu sentado na mesa pensando que talvez devesse ter virado eletricista. e o mais idiota é que esse deploy acabou virando resposta pra umas quatro perguntas comportamentais diferentes, só que eu só fui entender isso quando a Priya praticamente gritou comigo
ok, volta um pouco. Stripe primeiro. também outubro, mas antes. o entrevistador manda um "me conta sobre uma vez em que você lidou com um colega difícil". eu não tinha nada. comecei a inventar uma história e no meio dela minha cabeça apagou total, porque eu nem sabia mais pra onde aquela mentira tava indo. quatro segundos de silêncio. soltei um "é, a gente resolveu" e o cara digitou no laptop dele e o clima mudou na hora. rejeição dois dias depois. mandei mensagem pra minha amiga Priya e ela respondeu "cara, essa pergunta cai literalmente em todo loop, como assim você não tinha uma história" lol
Priya já mantinha uma planilha no google. cada pergunta comportamental, qual empresa, qual rodada, qual resposta ela deu, se passou ou não. ela ficou no meu pé pra eu fazer o mesmo e eu ignorei por dois meses inteiros porque sou teimoso e meio burro. montei a minha em dezembro e, numa noite em Hayes Valley, a gente abriu as duas no bar, notebook do lado de notebook. oitenta por cento das perguntas batiam. empresa diferente, mesma pergunta. a gente quase chorando de rir e o bartender olhando torto
aí eu organizei a planilha e fiquei olhando pra tela igual idiota. sessenta e uma perguntas saídas de vinte e três entrevistas. dez categorias. só isso. DEZ. conflito com colega disparado a maior, apareceu em oito das minhas vinte e três empresas. Priya tinha seis. "me fala de um desentendimento com alguém do time" e "quando seu gerente enxergou a situação de outro jeito" e "que resistência você deu numa decisão". mesma pergunta de peruca
Priya tinha sacado isso muito antes de mim. óbvio. ela já tava chegando em final round e eu ali, montando resposta nova toda vez que a pergunta mudava duas palavras. jeito burro de estudar, sinceramente. péssima ideia. e ela já usava o método STAR desde o começo, enquanto eu ainda nem sabia direito o que era aquilo
a parte de fracasso era onde eu mais me atrapalhava. eu contava aquela história de requisito mudando no meio do sprint e prazo escorregando. Priya me ligou e falou na lata que aquilo não era história de fracasso, era eu empurrando culpa pros lados. doeu porque ela tava certa. então voltei pro deploy. sexta à tarde, checkout morto por quarenta minutos, cliente pagante travado, meu gerente numa call com vice-presidente, eu pensando se dava pra começar outra carreira na segunda. talvez dava, pelo menos na minha cabeça naquela hora. só que a parte que salvava a resposta não era o caos. era o depois. checklist de pré-deploy. deploy arriscado só terça de manhã. outro engenheiro revisando comigo antes de subir qualquer coisa. eu tava escondendo justamente a parte que mostrava o aprendizado
liderança eu também respondia mal. vivia dizendo que era IC e não tinha história de gestão. Priya soltou um "ninguém tá te pedindo história de gestão, seu idiota. querem saber quando você moveu alguma coisa sem autoridade nenhuma". beleza. a minha era um serviço no trabalho morrendo em silêncio e o time dono ignorando isso. passei duas semanas enchendo o saco de cada pessoa daquele time, todo santo dia, até colocarem monitoramento. sem cargo, sem poder, só insistência mesmo lol
conflito tinha um caso bem específico. colega subindo código sem teste e o build quebrando duas vezes por semana. sentei com ele e descobri que o gerente dele tava pressionando pra entregar rápido. a gente combinou assim: ele escrevia os testes críticos e eu pegava o resto depois do merge. funcionou porque eu ouvi o lado dele antes de sair defendendo o meu
e tinha o resto também: prazo em que alguém precisa escolher o que cortar, ambiguidade quando ninguém te dá direção, dar feedback, ouvir feedback, fazer algo fora do escopo, se adaptar quando o plano muda, convencer outro time, defender uma escolha técnica. depois que conflito, fracasso e liderança pararam de me humilhar, o resto veio bem mais rápido
eu treinei as dez histórias com cronômetro. Priya e eu fizemos rodadas de entrevistas simuladas no Zoom, mas amigo sempre fala "tá bom" mesmo quando não tá bom porcaria nenhuma. o Marcus me mostrou o InterviewMan e aquilo era outro tipo de feedback. ele me mostrou que minha resposta tinha passado de dois minutos e eu não tinha citado um único número. doze dólares por mês. direto num nível que teus amigos nunca vão ser porque gostam demais de ti haha
usei durante entrevistas reais. empresa de pagamentos, pergunta esquisita sobre ambiguidade, formulada de um jeito que eu nunca tinha ouvido. três segundos de pânico, puxei a história certa que já tava pronta e ajustei na hora. deu final round
dei sete rejeições seguidas depois da Stripe. pedi feedback toda vez. uma startup em Soma falou "sua história de fracasso não mostra o que você mudou depois" e essa frase foi exatamente o motivo de eu reconstruir a história do deploy com a parte da checklist. um comentário de recrutador, provavelmente o motivo de eu ter sido contratado
Priya recebeu a oferta dela primeiro. ela comprou um drink com o meu cartão e falou "de outubro até dezembro você tá me devendo". cinquenta perguntas comportamentais soa enorme, mas no fim eram dez tópicos trocando de roupa. eu gastava dois minutos anotando cada entrevista e, lá pela décima quinta, só pensava no bartender de Hayes Valley e em como eu tinha entendido tudo aquilo tarde demais
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